Top Blogs - Ranking de Sites/Blog/Flog Sinta Liga! - UOL Blog
 


BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Homem, de 26 a 35 anos

 

   

    Fotos do Sinta Liga!
  Vídeos do Sinta Liga!
  DRINK TV!!!
  Drink Com as Estrelas no Orkut
  Odilon Alleyona
  Cacá Toledo
  Junião
  José Luiz Sampaio
  Daniel Seda
  Luiz Päetow
  Werner Schulz
  Pedro Furtado
  Paulinho Pereira
  Fernanda Giulietti
  Rogério Borovik
  Carolzinha
  Carla Marinho - Movie Stars
  O Povinho
  Sang Fezi
  Letras em cena
  Universo retrô
  Cia Paideia
  Mitologia Grega
  Mitologia Germânica
  Guia Off
  Pina Bausch
  Studio Nômade
  Muzzarelas
  Antropofocus
  Greenpeace
  Animal livre
  Domínio Público - Biblioteca digital


 

 
 

   

   


 
 
Sinta Liga!



Crítica: Crônica da Casa Assassinada @O Estado de S. Paulo II

O mal arraigado entre vidas em ruína

O Estado de S.Paulo

Crítica: Jefferson Del Rios

 

 

Em dado momento do romance Crônica da Casa Assassinada, de Lúcio Cardoso, a governanta da decadente família nele retratada anota o clima ruim entre seus membros: "Não havia dúvida de que qualquer coisa parecia prestes a explodir entre eles - quem sabe uma luta, um mal-entendido que se alastrasse pela vida inteira". É o que vai acontecer. O dramaturgo Dib Carneiro Neto transpôs com êxito a essência de um original extenso e complexo para a linguagem cênica à qual Gabriel Villela imprime o sentido de uma verdadeira Ópera dos Mortos, apropriado o título de outro romance, este de autoria de Autran Dourado, mais um dos mineiros que mesmo à beira-mar do Rio de Janeiro nunca deixaram o chão de ferro das Gerais. O espetáculo é um réquiem. Não tem a claridade das igrejas de Ouro Preto ou a leveza das pinturas de Guignard. Não. Aqui a vida se passa em roxo e no ofício das trevas. Um personagem avisa: "O mal estava arraigado na ruindade dos Menezes", a gente estranha que povoa o enredo através de cartas, diários, confissões. Narrativas de dias antigos ou tempo parado. O clima alucinatório domina o embate de dois irmãos por uma mesma mulher e de ambos com um terceiro que vaga pelo casarão embriagado e com trajes femininos. Vergonha e arauto da ruína de todos.

 

O interesse e o encanto do espetáculo residem na sua estrutura levemente arcaica e ao mesmo tempo inovadora. Interesse em se observar como em mundo psicológica e materialmente fechado passa a chama que isola e junta simultaneamente o catolicismo de certezas eternas e as teorias freudianas. Lúcio Cardoso (1913-1968) surgiu depois da literatura social e antes que se firmasse a vertente da ficção urbana. Período de obras de ênfase na subjetividade de aspecto persecutório, autoexplicativas já nos nomes. Pela esquerda, Dyonélio Machado com Os Ratos (1935) e Graciliano Ramos, Angústia (1936); pelo ângulo das crises espirituais e do fantástico Otávio de Faria, de Os Caminhos da Vida (1939) e Cornélio Penna do impressionante Menina Morta (1954). Há mais exemplos. E o encanto nasce do empenho de Villela em se reencontrar com Minas de beleza e de dores, exaltando as primeiras e não se esquivando das segundas. Ambas estão nas suas origens. Ele traz ao palco cores e formas que somam o barroco à arte espontânea dos panos e objetos cotidianos. Paira uma tensão entre o vínculo à terra natal e a exasperação com o conservadorismo dos costumes, o retraimento do "ferro nas almas" ou a melancolia que perpassa, por exemplo, o romance O Amanuense Belmiro, de Cyro dos Anjos. Crônica da Casa Assassinada leva esta contradição aos extremos da demência branda ou da extinção. Vai até onde não há "nenhum sinal dessa paz que é tão peculiar aos mortos".

 

Com um elenco coeso com espaço para destaques individuais - Villela encenou uma missa dramática com movimentos que sugerem alternadamente procissão, ceia pagã e crucificação enquanto mulheres e homens extravasam rancores e desejos. O espetáculo ressente-se quando se afasta do tom velado e dos subentendidos de Lúcio Cardoso. Quando o erotismo, o que é furtivo e reprimido nele, tende para gestos explícitos e diluidores. Há descompasso entre o modo como se mostra mais o corpo masculino e o retraimento do esplendor feminino de Nina, alvo de cobiça. Ela consta na história como linda "e uma presença (...). Não havia apenas beleza, mas toda uma atmosfera concentrada e violenta de sedução". Xuxa Lopes, com tipo imponente e o temperamento nervoso para o papel, está semiencoberta por trajes volumosos e uma touca/aplique que esconde os cabelos. Mesmo assim, ela tem lampejos de sensualidade, garra emocional e a fúria da personalidade conturbada em um contexto de paixões sombrias. Em incisiva semelhança com sua intervenção, Sérgio Rufino evita a caricatura e expressa eloquentemente o desvario do homem de vestido e salto alto a ostentar a insolência de quem se sabe derrotado.

 

Desequilíbrios nos detalhes não tiram a imponência do espetáculo. Cuidadoso com o discurso e os silêncios, o diretor os envolve com efeitos visuais quentes. Há um fundo de compassivo em cada sequência do que parece ser um gesto artístico e delicadamente pessoal de Gabriel Villela: homenagem a Lúcio Cardoso e adeus a um mundo que ainda atrai, mas ficou no passado.

 



Escrito por Cacá Toledo às 15h10
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Crítica: Crônica da Casa Assassinada @O Estado de S. Paulo I

Todas as febres

Em um casarão decadente, a saga de uma família consumida por ódio e paixão

13 de outubro de 2011 | 3h 07
O Estado de S.Paulo

Se tomássemos a arte como espelho da vida, diríamos que há coisas que só acontecem em Minas Gerais. É de lá a família Drummond que Nelson Rodrigues salpica de incestos em Álbum de Família, são de lá os sogros pouco confiáveis de Guimarães Rosa e são também mineiros os Menezes, grupo familiar inventado por Lúcio Cardoso no copioso romance Crônica da Casa Assassinada. Entre outros traços comuns nessa vertente ficcional, além da origem, está a infindável ciranda endogâmica que atrai e repele os estranhos. São muitos os motivos invocados pela ficção para enraizar nesse território conflitos primordiais da civilização e a arquitetura do livro de Lúcio Cardoso inventaria a maior parte deles, multiplicando os narradores de uma tragédia familiar. Há as razões históricas invocando a perda do protagonismo econômico e a consequente nostalgia de um passado mais próspero, há a condição geográfica do isolamento que faz sonhar com a orla marítima e seus atributos naturais: a atmosfera úmida, a brisa marinha, a fertilidade e a decomposição nesse ambiente propício ao ciclo vital. Em contraponto, estaria o solo mineral, a secura que calcifica e preserva os monumentos e os costumes enquanto impede a brotação do novo.

 

 

A transposição do livro para o teatro é, como toda a adaptação, uma leitura singular, tendo em vista ao mesmo tempo o rendimento no palco e afirmação do ponto de vista do encenador. No trabalho de Dib Carneiro Neto feito sobre um volume de mais de 400 páginas, os cortes foram indispensáveis. Foram sacrificados trechos que descrevem movimentos anímicos, abundantes no livro e característicos da escrita de Lúcio Cardoso. Sem esses trechos adquire relevo maior o drama passional nos seus instantes de crise. Enquanto no livro os segredos são lentamente circundados até que se revelem, as personagens no palco cumprem o preceito aristotélico da ação. Dialogam mais do que refletem e manifestam, de modo retilíneo, antigos ódios, ressentimentos mesquinhos, frustrações dissimuladas com esforço e, sobretudo, a combustão sexual que, no livro, arde como brasa antes de consumir os estranhos que se aproximam da família Menezes. Enfim, o teatro põe na ordem direta a caprichosa sintaxe da narrativa original. Na verdade, o resultado final se assemelha ao exagero e à deformação expressionista e, talvez sem querer, às formalizações de Nelson Rodrigues.

 

Um espetáculo cujo início apresenta um jovem nu copulando com um cadáver promete manter uma ponderável distância do andamento solene das obras que estetizam a decadência. Dirigido por Gabriel Villela, os episódios de erotismo reprimido e distorcido pela rigidez do hábito e pela negação sistemática assumem a forma de um ritual punitivo dos que são capazes "de todas as febres e todas loucuras do amor". A cidade, entorno que mantém vivo o mito de fidalguia dos Menezes, tem a uniformidade dos coros trágicos. Embora as personagens que representam a vox populi tenham posições distintas entre si - entre o farmacêutico, o médico e o padre há abissais diferenças de conduta e pensamento -, a função que desempenham na encenação é a de reforçar o fundo estático contra o qual se agitam, até destroçar-se, os últimos representantes de uma geração. Alguns dados de circunstância, como a estatura moral do médico e do padre, mereceriam, talvez, um certo destaque, uma vez que ambos são capazes de transcender o meio e, portanto, de sugerir outra espécie de civilidade.

 

Considerando-se que não há digressões interiores nem enigmas de resolução demorada, o conflito central situa-se, na perspectiva da direção, entre a vida pulsional e a classe "outrora rica, agora sobrando no retardo da província". Os que vêm de fora sabem amar e ser amados e, por essa razão, são vítimas sacrificiais no espetáculo. Nina e o jovem seduzido por ela se tornam respectivamente a santa envolta pelas vestes brancas que repousa em um escrínio transparente nos altares católicos e o moço atado à cruz como "um deus pagão". No lugar da opressão religiosa (rememorada com frequência na ficção dos mineiros), está a santificação dos transgressores como pessoas capazes de viver integralmente a condição humana. É um tema importante para a literatura dos anos 30 e 40 do século passado e, embora a encenação não discorra sobre o assunto, as imagens suportam esse peso significativo. Sobrepondo-se a todos esses signos ambíguos de religiosidade está o pórtico característico da arquitetura mineira no período áureo da província.

 

É um viés adotado pelo espetáculo a celebração da audácia sexual de Nina e da beleza masculina (no livro beleza e putrefação se mesclam), enquanto o grotesco recobre os que se pautam pela continência das paixões. Em um movimento dramático pendular entre o negativo e o positivo, a direção de Gabriel Villela parece ter se ocupado apenas do desenho das figuras corais. Para os outros intérpretes, as soluções são clichês melodramáticos ou desfiles exibicionistas. Sem uma base sólida para construir suas personagens, Xuxa Lopes (no papel de Nina) e Pedro Henrique Moutinho (representando André), parecem hesitantes e amedrontados diante dos adversários.

 

Crítica:

 

Mariangela Alves de Lima

 




Escrito por Cacá Toledo às 15h06
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




"Lembrar que estarei morto em breve é a ferramenta mais importante que já encontrei para me ajudar a tomar grandes decisões. Porque quase
tudo - expectativas externas, orgulho, medo de passar vergonha ou falhar - caem diante da morte, deixando apenas o que é importante.
Lembrar que voce vai morrer é a melhor maneira que eu conheço para evitar a armadilha de pensar que voce tem algo a perder. Voce já está nu. Não há razão para não seguir seu coração."

Steve Jobs



Escrito por Cacá Toledo às 00h18
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Sempre tive muitos amigos mais velhos, legais, chatos, descolados, grandes, sábios, exagerados e por eles fui guiado até aqui.

Acho que vou ser um velho bacana. 



Escrito por Cacá Toledo às 19h37
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Meu primeiro dia dos pais.

Ontem conversávamos Cuca e eu com minha mãe e falávamos da comemoração do próximo dia dos pais. Enquanto ela comentava que não sabia o que meu pai queria fazer, a Cuca lembrou a ela que era meu primeiro dia dos pais. Foi quando a ficha, pra ela que já comprou todo o enxoval do João Antônio e estava mostrando pra gente, caiu e ela se tocou de que eu ia mesmo ser pai, de verdade, como o meu. Aquilo bateu nela de um jeito lindo e ela teve uma reação que durou alguns bons segundos e que nunca vou esquecer.

Me emocionei demais e me dei conta da ternura e importância disso tudo enquanto assistia a felicidade da minha mãe pela câmera da internet.



Escrito por Cacá Toledo às 16h05
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Crônica da Casa Assassinada no Prêmio Shell 2011

Hoje minha peça "Crônica da Casa Assassinada" recebeu quatro indicações para o Prêmio Shell 2011 - Rio de Janeiro, o que fez da peça a recordista em indicações do primeiro semestre para a edição carioca do prêmio.

Os indicados são Gabriel Villela pela direção e figurinos, Domingos Quintiliano pela iluminação e Márcio Vinícius pelos cenários.

Acho que é a sexta peça que faço em sete anos que recebe indicações ou estatuetas do prêmio (as outras são "A Serpente" - Melhor Cenário, Rio, André Cortez; "Esperando Godot" - indicação para Melhor Atriz, Magali Biff; "Leonce e Lena" - indicação de Melhor Trilha / Música, Babaya e Marcello Boffat; "Salmo 91" - indicação de Melhor Direção para Gabriel Villela e prêmios de Melhor Texto e Ator para Dib Carneiro Neto e Rodolfo Vaz respectivamente e "Vestido de Noiva" - indicação de Melhor Trilha Sonora para Daniel Maia) sendo a segunda com destaque na edição carioca e a segunda que estou como ator. Nas outras, em três estava como diretor assistente e em uma como produtor.

Acho que estou indo bem.



Escrito por Cacá Toledo às 16h00
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Mutante

Hoje tive meu primeiro contato direto com o Arnaldo Baptista. Ele tuitou alguma dessas piadas sobre "o que é um pontinho...". Eu respondi com uma original. Ele retuitou. Foi bem louco.



Escrito por Cacá Toledo às 15h45
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Belo Horizonte

DOMINGO, 31 DE JULHO DE 2011

Crônica da casa assassinada



Foto de divulgação, de João Caldas.

Com casa lotada, no Teatro Alterosa, assisti ontem à peça Crônica da casa assassinada, baseada em romance homônimo de Lúcio Cardoso, com grupo carioca, adaptação de Dib Carneiro e direção de Gabriel Vilela. Hoje é a última apresentação em Belo Horizonte, às 19 horas.


O romancista mineiro Lúcio Cardoso tem sido enquadrado na linguagem dos grandes moralistas do Ocidente, voltados aos problemas da consciência; notadamente no seu caso interessado em mostrar como os aspectos sombrios da sexualidade atormentam os indivíduos. De imediato, deve ser reconhecido o esforço positivo em adaptar aos palcos um dos textos maiores da literatura brasileira, não apenas em extensão, mas em densidade e exuberância técnica e estética. A primeira cena convoca a nota impactante e nervosa que acompanha todo o espetáculo: a cena de sexo incestuosa entre mãe e filho, mais claramente, entre o jovem André e sua mãe, em agonia no leito de morte. Ainda que mais tarde, de forma nebulosa, seja aventada a hipótese de o jovem ser filho de Ana e não de Nina, o incesto está irremediavelmente inscrito e vivido como desejo mórbido que passa a contaminar as outras personagens. E a brutal oscilação entre vida e morte, entre corpo desejante e corpo em decomposição, em suas variadas conotações de ruína física e moral, parece atar o destino da família. Concentrada no casarão de tradicional fazendeiros das Gerais, a trama transcorre em meio a paixões extremas e desintegradoras. O ambiente fechado, pouco arejado e opressivo, abriga a progressiva desintegração financeira e moral dos Menezes.


A adaptação teatral consegue captar os momentos decisivos da tragédia que, se no romance recebe uma complexa e arrastada arquitetura discursiva, formada pelo entrelaçamento de vários discursos, no palco se vê desenvolvida em fragmentos vertiginosos, carregados de denso e patético simbolismo. Nina, a bela carioca liberada, tal como no romance, concentra em si a semente da degradação. Ela carrega uma beleza única, “mórbida e em declínio, como se vibrasse em uníssono com o espírito que presidia a casa toda”, depõe o farmacêutico. A montagem de Gabriel Vilela explora de forma criativa, com efeitos visuais e sonoros apropriados, a atmosfera sufocada e tensa em que as personagens são domadas por instintos e atormentadas pela repressão e sentimento de culpa. Os traços mineiros presentes na montagem centram-se sobretudo na arquitetura barroca (a réplica da fachada da igreja de São Francisco de Assis, no fundo da cena), e na obstinada submissão à religiosidade, às convenções sociais e aos indecifráveis desígnios da fatalidade. Somados aos motivos ibéricos (as canções românticas), tais motivos ampliam-se, tornando-se elementos míticos e universais.



Escrito por Cacá Toledo às 21h21
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




O lado bom do facebook



Escrito por Cacá Toledo às 23h42
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




SANCHO: Tem alguma Coca aí?

DAVI: Cocaína? Pra quê?

SANCHO: Não quero chorar. A cocaína seca as lágrimas.

 

"Carne Trêmula", Pedro Almodóvar.



Escrito por Cacá Toledo às 15h11
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Todo mundo já foi astronauta

Fico pensando, agora que estou às voltas com o nascimento de meu bebê, que todo mundo já foi astronauta um dia. Sim, antes de nascer. E talvez por isso, a imagem dos homens que flutuam no espaço seja para nós tão impressionante. É a reconstrução de nosso universo primal, no ventre da mãe, vivendo em uma órbita própria, circular, em uma nave pouco espaçosa, onde a lei da gravidade não vale tanto como para a gente aqui, do lado de fora.



Escrito por Cacá Toledo às 14h26
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




"Mas o que vem a ser para uma personagem o "seu próprio" drama?

 

Cada produto da fantasia, cada criação da arte deve, para existir, levar em si o seu próprio drama, isto é, o drama do qual e pelo qual é o personagem. O drama é a razão de ser da personagem. É a sua função vital, necessária para que ela possa existir."

 

Luigi Pirandello - Prefácio para "Seis Personagens a Procura de um Autor".



Escrito por Cacá Toledo às 14h20
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Teatro de Admiração

por Bárbara Heliodora

Adaptar para o teatro uma obra literária de narrativa tradicional já é uma tarefa muito difícil; o que dizer então, do trabalho de Dib Carneiro Neto para conter em termos de dramaturgia os problemas ou a angústia que Lúcio Cardoso apresentou em “Crônica da casa assassinada”, com uma escritura experimental que mescla vários gêneros? Temos, no entanto, de encarar a peça de mesmo título pelo que ela veio a ser: uma obra contida em si, que traz compactadas, em um texto que dura pouco mais de uma hora, as alucinantes cargas de mistério e fantasia, e, principalmente de um dúbio prazer pago com toda a carga de culpa e de pecado que são parte essencial da cultura de Minas Gerais. 


Mineiridade em cena

Na verdade, os primeiros minutos, com pequenas unidades de ação ou diálogo que já falam da desagregação da família que habita o casarão, são um pouco difíceis de compreender plenamente, mas logo adiante os pedaços da casa estraçalhada vão se somando uns aos outros, construindo a história de vício e maldade que é detonada pela volta de Nina àquele universo familiar torturado e perdido. Quando o espetáculo termina, só resta a admiração pelo que foi realizado, como ação e como linguagem, dando força excepcional ao núcleo central, o fatal amor que se pensa incestuoso.

A encenação de Gabriel Villela, cuja mineiridade o leva a conhecer o mais profundo dos mistérios de sua terra, tem toda a beleza que caracteriza seus trabalhos. A belíssima cenografia de Márcio Vinicius deve ter tido base na visão diretorial do texto, e os figurinos do próprio Gabriel povoam o palco com figuras de um ritual, no qual os homens pecam de cartola e são símbolos da funcionalidade de cada personagem. A luz de Domingos Quintiliano, assim como a sonoplastia de Gabriel, reforçam o clima do ritual, mas correspondem também à implacável realidade dos que assassinam a casa, como a si mesmos, pela podridão.

O elenco é formado por Cacá Toledo, Flávio Tolezani, Helio Souto Jr., Leticia Teixeira, Marco Furlan, Maria do Carmo Soares, Pedro Henrique Moutinho, Rogério Romera, Sergio Rufino e Xuxa Lopes. Criando um vasto número de personagens, algumas atuações podem destacar-se um pouco no espetáculo, mas é o conjunto que expressa a essência da “Crônica da casa assassinada” e da criativa visão que tem dela o diretor. O teatro aqui cumpre bem, mesmo que dolorosamente, a tarefa de nos fazer conhecer um pouco melhor o potencial humano, seja para o bem, seja para o mal.



Escrito por Cacá Toledo às 13h50
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




João Antonio

Fiquei tanto tempo sem atualizar meu blog que deu tempo de fazer um filho.

Olha o ultrassom dele aí:

João Antonio



Escrito por Cacá Toledo às 12h01
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Crítica de "Crônica da Casa Assassinada" por Macksen Luíz (13/06/2011)

 

Ritual místico-mineiro de Gabriel Villela na reafirmação da sua estética

Lúcio Cardoso, quando escreveu a crônica de família mineira, visitada por alguém que provoca a circulação de recônditos suores interiores, identificando através de subjetividade afogada na repressão dos desejos, imprimiu atmosfera épica-trágica-melodramática à narrativa em planos temporais alternados e formas descritivas variadas. Para capturar a introjeção de pulsões pecaminosas, a declinante exposição da caverna de almas atormentadas por paixões interditas, Lúcio Cardoso desatou os laços familiares profundos, construídos por religiosidade asfixiante e desvãos de sentimentos ensombrados pelo impulso das sanções. O que está escondido pela superfície do compromisso social, desmorona com a vinda de uma mulher que ocupa todos os cômodos deste escombro familiar, numa ruína em que nada escapa à decomposição, em que “a infelicidade é necessária”, e que os personagens se referem a si como quem apodrece. Neste “enredo de enigmas”, cada um parece criar a sua própria existência e onde “ não há triunfo sem pecado”. Na saga de danações, a transgressão se afirma como culpa e pecado, fincada em interioridade convulsionada por  religiosidade carnal. É o que o romance de Lúcio Cardoso condensa de maneiras diversas – diários, cartas, desabafos – em caudaloso debruçar sobre almas que se confessam em culpa, vividas através de suas de ressonâncias bíblicas. A adaptação de Dib Carneiro Neto destaca em afinada síntese os pontos atritantes  deste rito de descida aos infernos, alcançando  síntese dramática que espelha a atmosfera do romance, se apropriando da sua densidade narrativa. A transposição para o palco se debruça, a tal ponto, na obra de Cardoso, que não é preciso mais de que uma hora para que o espetáculo, em cartaz no Teatro Maison de France, se realize. Gabriel Villela, dispondo deste material dramatúrgico e no confortávelexercício da sua imagística místico-mineira, inflou-o de imagens poderosas e de interpretação distanciada, duas das suas mais recorrentes obsessões de encenador. A visualidade, sempre impositiva e integrante indissociável da linguagem cênica de Villela, e que algumas vezes em suas montagens devoram os demais elementos, em Crônica da Casa Assassinada se revigora. Arrebatador, e belamente sufocante, o cenário de Márcio Vinícius (um portal de igreja barroca mineira, que se transforma em oratório, e uma extensa mesa, cama para tantos desejos, e altar  para ceia familiar e sexual) e os figurinos de Gabriel Villela (símbolos católicos de rituais de vida - um Cristo jardineiro - e de morte -  panejamento que se torna, ao mesmo tempo, lençol e mortalha) – ,ao lado da trilha sonora (óperas, boleros, cânticos) e da iluminação de Domingos Quintanilha, que tornam a montagem de Villela um encontro depurado do diretor com sua estética. Além desta beleza rascante, a atuação do elenco – Xuxa Lopes, Cacá Toledo, Hélio Souto Jr., Letícia Teixeira, Marco Furlan, Maria do Carmo Soares, Pedro Henrique Moutinho, Rogério Romera e Sérgio Rufino – se harmoniza tão absolutamente com esse culto à putrefação do prazer. 

fonte: http://www.macksenluiz.blogspot.com



Escrito por Cacá Toledo às 11h55
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]