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Sinta Liga!



Crítica: Crônica da Casa Assassinada @O Estado de S. Paulo II

O mal arraigado entre vidas em ruína

O Estado de S.Paulo

Crítica: Jefferson Del Rios

 

 

Em dado momento do romance Crônica da Casa Assassinada, de Lúcio Cardoso, a governanta da decadente família nele retratada anota o clima ruim entre seus membros: "Não havia dúvida de que qualquer coisa parecia prestes a explodir entre eles - quem sabe uma luta, um mal-entendido que se alastrasse pela vida inteira". É o que vai acontecer. O dramaturgo Dib Carneiro Neto transpôs com êxito a essência de um original extenso e complexo para a linguagem cênica à qual Gabriel Villela imprime o sentido de uma verdadeira Ópera dos Mortos, apropriado o título de outro romance, este de autoria de Autran Dourado, mais um dos mineiros que mesmo à beira-mar do Rio de Janeiro nunca deixaram o chão de ferro das Gerais. O espetáculo é um réquiem. Não tem a claridade das igrejas de Ouro Preto ou a leveza das pinturas de Guignard. Não. Aqui a vida se passa em roxo e no ofício das trevas. Um personagem avisa: "O mal estava arraigado na ruindade dos Menezes", a gente estranha que povoa o enredo através de cartas, diários, confissões. Narrativas de dias antigos ou tempo parado. O clima alucinatório domina o embate de dois irmãos por uma mesma mulher e de ambos com um terceiro que vaga pelo casarão embriagado e com trajes femininos. Vergonha e arauto da ruína de todos.

 

O interesse e o encanto do espetáculo residem na sua estrutura levemente arcaica e ao mesmo tempo inovadora. Interesse em se observar como em mundo psicológica e materialmente fechado passa a chama que isola e junta simultaneamente o catolicismo de certezas eternas e as teorias freudianas. Lúcio Cardoso (1913-1968) surgiu depois da literatura social e antes que se firmasse a vertente da ficção urbana. Período de obras de ênfase na subjetividade de aspecto persecutório, autoexplicativas já nos nomes. Pela esquerda, Dyonélio Machado com Os Ratos (1935) e Graciliano Ramos, Angústia (1936); pelo ângulo das crises espirituais e do fantástico Otávio de Faria, de Os Caminhos da Vida (1939) e Cornélio Penna do impressionante Menina Morta (1954). Há mais exemplos. E o encanto nasce do empenho de Villela em se reencontrar com Minas de beleza e de dores, exaltando as primeiras e não se esquivando das segundas. Ambas estão nas suas origens. Ele traz ao palco cores e formas que somam o barroco à arte espontânea dos panos e objetos cotidianos. Paira uma tensão entre o vínculo à terra natal e a exasperação com o conservadorismo dos costumes, o retraimento do "ferro nas almas" ou a melancolia que perpassa, por exemplo, o romance O Amanuense Belmiro, de Cyro dos Anjos. Crônica da Casa Assassinada leva esta contradição aos extremos da demência branda ou da extinção. Vai até onde não há "nenhum sinal dessa paz que é tão peculiar aos mortos".

 

Com um elenco coeso com espaço para destaques individuais - Villela encenou uma missa dramática com movimentos que sugerem alternadamente procissão, ceia pagã e crucificação enquanto mulheres e homens extravasam rancores e desejos. O espetáculo ressente-se quando se afasta do tom velado e dos subentendidos de Lúcio Cardoso. Quando o erotismo, o que é furtivo e reprimido nele, tende para gestos explícitos e diluidores. Há descompasso entre o modo como se mostra mais o corpo masculino e o retraimento do esplendor feminino de Nina, alvo de cobiça. Ela consta na história como linda "e uma presença (...). Não havia apenas beleza, mas toda uma atmosfera concentrada e violenta de sedução". Xuxa Lopes, com tipo imponente e o temperamento nervoso para o papel, está semiencoberta por trajes volumosos e uma touca/aplique que esconde os cabelos. Mesmo assim, ela tem lampejos de sensualidade, garra emocional e a fúria da personalidade conturbada em um contexto de paixões sombrias. Em incisiva semelhança com sua intervenção, Sérgio Rufino evita a caricatura e expressa eloquentemente o desvario do homem de vestido e salto alto a ostentar a insolência de quem se sabe derrotado.

 

Desequilíbrios nos detalhes não tiram a imponência do espetáculo. Cuidadoso com o discurso e os silêncios, o diretor os envolve com efeitos visuais quentes. Há um fundo de compassivo em cada sequência do que parece ser um gesto artístico e delicadamente pessoal de Gabriel Villela: homenagem a Lúcio Cardoso e adeus a um mundo que ainda atrai, mas ficou no passado.

 



Escrito por Cacá Toledo às 15h10
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Crítica: Crônica da Casa Assassinada @O Estado de S. Paulo I

Todas as febres

Em um casarão decadente, a saga de uma família consumida por ódio e paixão

13 de outubro de 2011 | 3h 07
O Estado de S.Paulo

Se tomássemos a arte como espelho da vida, diríamos que há coisas que só acontecem em Minas Gerais. É de lá a família Drummond que Nelson Rodrigues salpica de incestos em Álbum de Família, são de lá os sogros pouco confiáveis de Guimarães Rosa e são também mineiros os Menezes, grupo familiar inventado por Lúcio Cardoso no copioso romance Crônica da Casa Assassinada. Entre outros traços comuns nessa vertente ficcional, além da origem, está a infindável ciranda endogâmica que atrai e repele os estranhos. São muitos os motivos invocados pela ficção para enraizar nesse território conflitos primordiais da civilização e a arquitetura do livro de Lúcio Cardoso inventaria a maior parte deles, multiplicando os narradores de uma tragédia familiar. Há as razões históricas invocando a perda do protagonismo econômico e a consequente nostalgia de um passado mais próspero, há a condição geográfica do isolamento que faz sonhar com a orla marítima e seus atributos naturais: a atmosfera úmida, a brisa marinha, a fertilidade e a decomposição nesse ambiente propício ao ciclo vital. Em contraponto, estaria o solo mineral, a secura que calcifica e preserva os monumentos e os costumes enquanto impede a brotação do novo.

 

 

A transposição do livro para o teatro é, como toda a adaptação, uma leitura singular, tendo em vista ao mesmo tempo o rendimento no palco e afirmação do ponto de vista do encenador. No trabalho de Dib Carneiro Neto feito sobre um volume de mais de 400 páginas, os cortes foram indispensáveis. Foram sacrificados trechos que descrevem movimentos anímicos, abundantes no livro e característicos da escrita de Lúcio Cardoso. Sem esses trechos adquire relevo maior o drama passional nos seus instantes de crise. Enquanto no livro os segredos são lentamente circundados até que se revelem, as personagens no palco cumprem o preceito aristotélico da ação. Dialogam mais do que refletem e manifestam, de modo retilíneo, antigos ódios, ressentimentos mesquinhos, frustrações dissimuladas com esforço e, sobretudo, a combustão sexual que, no livro, arde como brasa antes de consumir os estranhos que se aproximam da família Menezes. Enfim, o teatro põe na ordem direta a caprichosa sintaxe da narrativa original. Na verdade, o resultado final se assemelha ao exagero e à deformação expressionista e, talvez sem querer, às formalizações de Nelson Rodrigues.

 

Um espetáculo cujo início apresenta um jovem nu copulando com um cadáver promete manter uma ponderável distância do andamento solene das obras que estetizam a decadência. Dirigido por Gabriel Villela, os episódios de erotismo reprimido e distorcido pela rigidez do hábito e pela negação sistemática assumem a forma de um ritual punitivo dos que são capazes "de todas as febres e todas loucuras do amor". A cidade, entorno que mantém vivo o mito de fidalguia dos Menezes, tem a uniformidade dos coros trágicos. Embora as personagens que representam a vox populi tenham posições distintas entre si - entre o farmacêutico, o médico e o padre há abissais diferenças de conduta e pensamento -, a função que desempenham na encenação é a de reforçar o fundo estático contra o qual se agitam, até destroçar-se, os últimos representantes de uma geração. Alguns dados de circunstância, como a estatura moral do médico e do padre, mereceriam, talvez, um certo destaque, uma vez que ambos são capazes de transcender o meio e, portanto, de sugerir outra espécie de civilidade.

 

Considerando-se que não há digressões interiores nem enigmas de resolução demorada, o conflito central situa-se, na perspectiva da direção, entre a vida pulsional e a classe "outrora rica, agora sobrando no retardo da província". Os que vêm de fora sabem amar e ser amados e, por essa razão, são vítimas sacrificiais no espetáculo. Nina e o jovem seduzido por ela se tornam respectivamente a santa envolta pelas vestes brancas que repousa em um escrínio transparente nos altares católicos e o moço atado à cruz como "um deus pagão". No lugar da opressão religiosa (rememorada com frequência na ficção dos mineiros), está a santificação dos transgressores como pessoas capazes de viver integralmente a condição humana. É um tema importante para a literatura dos anos 30 e 40 do século passado e, embora a encenação não discorra sobre o assunto, as imagens suportam esse peso significativo. Sobrepondo-se a todos esses signos ambíguos de religiosidade está o pórtico característico da arquitetura mineira no período áureo da província.

 

É um viés adotado pelo espetáculo a celebração da audácia sexual de Nina e da beleza masculina (no livro beleza e putrefação se mesclam), enquanto o grotesco recobre os que se pautam pela continência das paixões. Em um movimento dramático pendular entre o negativo e o positivo, a direção de Gabriel Villela parece ter se ocupado apenas do desenho das figuras corais. Para os outros intérpretes, as soluções são clichês melodramáticos ou desfiles exibicionistas. Sem uma base sólida para construir suas personagens, Xuxa Lopes (no papel de Nina) e Pedro Henrique Moutinho (representando André), parecem hesitantes e amedrontados diante dos adversários.

 

Crítica:

 

Mariangela Alves de Lima

 




Escrito por Cacá Toledo às 15h06
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